As cidades carregam memória. Concentram-na nos grandes monumentos e nos edifícios classificados, mas também em lugares que a pressa do quotidiano torna banais: uma fábrica, um armazém, uma chaminé, uma oficina, uma estrutura portuária ou um cais abandonado. Durante décadas, olhou-se para estes espaços exclusivamente pela função que desempenhavam. Extinta essa função, parecia extinta a razão da sua existência. Hoje, felizmente, compreendemos melhor o seu valor.
A arquitetura industrial constitui um dos maiores arquivos físicos da metamorfose das cidades europeias nos séculos XIX e XX. Ela narra a história do trabalho, da industrialização, das migrações, da relação simbiótica entre os rios e as fábricas, entre os portos e os bairros operários que floresceram nas suas periferias. Rasurar estes vestígios é arrancar páginas inteiras dessa narrativa. Preservá-los, contudo, não implica congelar as cidades em vitrines museológicas. O desafio é outro, mais subtil e mais fértil: encontrar formas de permitir que a memória participe ativamente na construção do futuro.
O GRANDE PORTO INDUSTRIAL
Esta questão adquire uma relevância particular no território do Grande Porto. Durante mais de um século, o Douro foi simultaneamente paisagem e infraestrutura económica. Nas suas margens instalaram-se armazéns, cais, oficinas e atividades ligadas ao comércio fluvial. Vila Nova de Gaia conserva algumas das marcas mais expressivas dessa relação. A arquitetura fabril, os muros de pedra, as estruturas portuárias e a própria configuração das margens contam uma parte essencial da história económica e social da região.
Mas as cidades são organismos vivos. As atividades industriais deslocam-se, os edifícios perdem a sua razão de ser e antigas áreas produtivas tornam-se novamente disponíveis para a cidade. É nestes momentos de rutura que surge uma escolha fundamental: podemos apagar o que existiu e recomeçar do zero, ou podemos procurar discernir aquilo que, do passado, merece verdadeiramente continuar.
O ANTIGO CAIS DO LUGAN
Foi esta segunda possibilidade que esteve na génese do LUGAN, o mais recente empreendimento do Grupo MCaetano numa antiga área industrial da margem do Douro, em Vila Nova de Gaia. O ponto de partida do projeto não foi imaginar um objeto arquitetónico autónomo para depois o implantar no território. Foi, antes, olhar primeiro para o lugar. Para a sua orientação, a escala das construções existentes, a textura dos materiais, a presença imponente do antigo Cais do Lugan e a maneira como aquele conjunto foi sedimentando a sua identidade na paisagem ao longo do tempo.
A pergunta que colocámos à arquitetura tornou-se, assim, mais ambiciosa: como construir algo novo sem apagar a espessura cronológica que permitia reconhecer aquele lugar? O projeto responde através da reinterpretação crítica, e não da reprodução nostálgica. A memória industrial não precisa de ser reconstituída como cenário de fachada. Pode sobreviver na escala, na materialidade, na estrutura rítmica das fachadas e na forma como a nova arquitetura se debruça sobre o rio. É uma memória transformada, viva, que se atualiza sem se desvirtuar.
ENTRE PRESERVAR E TRANSFORMAR
A regeneração do património industrial coloca precisamente esta tensão criativa. Uma cidade que preservasse tudo deixaria de conseguir respirar. Uma cidade que substituísse constantemente o seu legado perderia progressivamente a sua identidade. Entre esses dois extremos existe um território particularmente fértil para a arquitetura contemporânea. É nele que a preservação deixa de significar conservação física para passar a significar interpretação.
Alguns elementos permanecem. Outros são recuperados. Outros ainda desaparecem, mas deixam uma influência indelével na arquitetura que lhes sucede. O essencial é que a transformação nunca ocorra sem consciência histórica.
A ARQUITETURA COMO CONTINUIDADE
Existe uma ideia de sustentabilidade que ultrapassa largamente o desempenho energético dos edifícios. É a sustentabilidade cultural das cidades. Uma urbe verdadeiramente sustentável deve ser capaz de se reinventar sem perder, ciclicamente, os elementos que permitem às pessoas reconhecerem a sua própria história e construírem um vínculo de pertença.
O património industrial desempenha um papel crucial neste processo, porque representa uma memória recente, ainda palpável, profundamente enraizada nas comunidades que forjaram as cidades contemporâneas. Quando a arquitetura consegue integrar essa memória num novo programa, acontece um fenómeno raro e belo: o passado deixa de ser apenas passado. Reentra na corrente da vida urbana.
É essa possibilidade que procuramos explorar no LUGAN. Não para reconstruir o que existiu, nem para imitar a estética fabril, mas para garantir que o próximo capítulo da margem do Douro conserve a integridade das páginas que vieram antes. Porque uma cidade não precisa de escolher entre a memória e a transformação. Pode, e deve, construir o futuro a partir da síntese de ambas.



